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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Cidade como lugar de diapraxis literária

Ana Prado
Programa de Pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro
anaprado.arte@gmail.com

1. Sobre os Grafites Literários

Grafite Literário (GL) é um termo definido por essa autora, que designa as manifestações artísticas de escritos nos muros e paredes da cidade. É um tipo de intervenção de arte no espaço urbano, onde a palavra se instaura num diálogo com o outro, através de diversas técnicas, tais como gravura, stencil, tinta spray, lambe-lambe, colados nos muros da cidade, produzidos por atores variados. Como exemplo, trazemos alguns GLs (Figura 1), encontrados no centro da cidade do Rio de Janeiro, que ilustram os sentidos aqui apropriados, de forma a conduzir a linha de pensamento exposta neste artigo.
Os GLs se inserem como uma manifestação cultural, onde a escrita permeia e se compõe com uma rede de ações reivindicando o direito à cidade, abrindo espaço para uma série de leituras que evocam como a cidade do Rio de Janeiro se situa frente a uma gramática territorial, no esforço coletivo ou individual dos artistas na contemporaneidade no uso dos espaços públicos, em especial as ruas.



              

Figura 1– Coletivo Tupinambá Lambido – Irreal, 2016; Passando a boiada, 2018; Abre Caminho, 2022; Tchutchuca do centrão, 2022.
Fonte: https://www.instagram.com/p/Ci-0F1BpIa2/


                           
2. Cidade e cultura na contemporaneidade    

Cidade e cultura são termos indissociáveis. A cultura não só como prática artística, mas também como comportamento e modo de vida, constitui o imaginário simbólico social e urbano dos espaços na cidade (VAZ; SELDIN, 2018, p. 10). Então, pensar a cidade por meio da cultura é de fato se aproximar de um sistema que ultrapassa a dimensão física e que envolve as esferas política, social e cultural. A cidade não é limitada apenas pelo seu espaço geográfico, mas também pela existência de suas subjetividades (VAZ; SELDIN, 2018, p. 10).

Nas últimas três décadas, a relação entre cidades e cultura começou a ganhar destaque no campo do urbanismo e do planejamento urbano, em função da espetacularização dos projetos de revitalização urbana e da construção de grandes centros culturais pelo mundo (VAZ; SELDIN, 2018, p. 10). As políticas urbanas neoliberais nesse contexto são formuladas mediante uma economia simbólica que afirma visões de mundo e noções de imagens, numa operação de conversão de territórios em grandes projetos urbanos e mega equipamentos culturais e esportivos, com o objetivo de neutralizar as forças sociais das cidades, mediante projetos de cidade ditos consensuais e competitivos (SÁNCHEZ et al, 2016, p. 219).

Sobre essas bases é interessante agregar um novo conceito de espaço apresentado por Faranak Miraftab, pois nos parece bastante apropriado para melhor compreender questões de iniciativas dos moradores e do poder público na cidade. Trata-se de reconhecer por iniciativa dos habitantes os espaços inventados, aqueles espaços e dinâmicas sociais produzidas na recriação dos lugares mediante a inventividade artística, que colocam em questão, pela contestação ou pelo amoldamento, os chamados espaços convidados, aqueles espaços concebidos e mediados pelas instituições dentro dos moldes da promoção de uma participação social controlada e planejada nas instâncias governamentais, na questão das políticas urbanas voltadas aos espaços públicos (MIRAFTAB, 2009, p. 38-39).

Nos espaços inventados geralmente se delineiam várias ações de ordem sociocultural ou artística e até mesmo política, como foi o caso do OcupaMinC que, em 2016, se moldou como um exemplo de colaboração participativa por iniciativa de artistas, músicos e ocupantes e que desencadeou um processo de economia viva jamais vista até então nos últimos tempos, tudo em defesa da manutenção do Ministério da Cultura, que havia sido desmontado pelo governo que assumiu após o impeachment da Presidente Dilma. Ivana Bentes (2016) refere-se à esta ação, como uma economia viva como um mutirão organizado por colaboradores em defesa do MinC, dizendo:

Quanto custaria ao próprio Ministério da Cultura patrocinar uma ocupação tão rica e diversa? Certamente milhões em cachês, infraestrutura, comunicação, segurança, uma infinidade de serviços que foram possíveis porque a ocupação era um mutirão, um transbordamento que se manteve com a colaboração dos próprios frequentadores e mais uma rede de parceiros, apoiadores, simpatizantes, voluntários, ocupantes. Trata-se de uma experiência radical de economia colaborativa, governança e cogestão (em nenhum momento as funções administrativas do MinC foram interrompidas!), um "case" de desmonetização das ações culturais. Uma aula de gestão pública (BENTES, 2016). 

Aqui contextualizamos os GLs (Figura 1) como um espaço inventado, que se articula por mensagens e manifestações textuais, produzidos por artistas, que se unem num esforço coletivo, marcando sua presença, num desejo de participar dessa economia viva e colaborativa frente à cidade que queremos.

Como exemplos de espaço convidado podemos destacar, no caso do Rio de Janeiro, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, em razão das quais, mediante a justificativa de projetos urbanísticos e de implantações de equipamentos esportivos, populações foram removidas de seu lugar de moradia, como foi o caso da Vila Autódromo em Jacarepaguá. Essas intervenções provocaram muitas tensões devido ao não reconhecimento do poder público da história e da vida dessas pessoas que tiveram suas casas demolidas, sendo transformadas em meros obstáculos aos propósitos ditos "maiores".

Outro exemplo de espaço convidado é o projeto Porto Maravilha, iniciado em 2009, que se trata de uma intervenção urbanística na área portuária, próxima ao Centro, e de grande valor histórico na cidade do Rio de Janeiro. Pedro Novais descreve que a intervenção sofreu críticas, por impor o enobrecimento do entorno imediato, forçando inclusive a redução do número de residências e habitantes na favela da Providência. Como parte do projeto foi instalado na comunidade um teleférico, o qual foi criticado pelos moradores em virtude da retirada dos mesmos e dos reassentamentos necessários para sua implantação, e por ter ocupado parte da praça local. Mas, mesmo assim, o dispositivo foi mantido como elemento importante para a composição paisagística e para a dinâmica do turismo (NOVAIS, 2016, p. 83).

O que nos interessa nesse momento é evidenciar a utilização da cultura como instrumento de desenvolvimento econômico, vinculada ao padrão da sociedade de consumo, sempre desejosa de áreas urbanas cobertas por todos os serviços de infraestrutura e de ofertas culturais que atendam em nível local e global suas ansiedades.

O que vemos de fato é uma economia cultural com diferentes aspectos, que envolve indústria cultural, indústria turística e economia simbólica. Todos os aspectos dessas indústrias perfazem um conjunto de programas e projetos que incidem sobre o tecido urbano e que são usados para o objetivo estratégico de desenvolvimento local, associado a planos e políticas culturais. Essa estratégia busca envolver a cidade sob o aspecto de uma "política-espetáculo" (SÁNCHEZ; GUTERMAN, 2016, p. 219), terminologia usada primeiramente por Guy Debord no seu livro “A sociedade do espetáculo”, onde ele destaca que a raiz do espetáculo está no terreno da economia (DEBORD, 2002, p. 11). Trata-se da cidade transformada em produto, vendida para investidores, turistas e consumidores (SÁNCHEZ; GUTERMAN, 2016, p. 223).

Como parte dessas estratégias existe uma forte produção simbólica de promoção da imagem do Rio de Janeiro, que impulsiona um aparato de espaços consumíveis em padrão mundial gentrificados e disneyficados, que esconde as desigualdades e homogeneíza os gostos e valores, com consequências na apropriação dos espaços públicos e na formação da cidadania (SÁNCHEZ; GUTERMAN, 2016, p. 220). Esse é um fato marcante e gerador de conflitos urbanos, pois são projetos que utilizam modelos internacionais, e, portanto, exigem um dito modelo imposto de imagem da cidade que seja condizente, por exemplo, com a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos Rio 2016.

Nesse contexto, sabe-se que os megaeventos expandem domínios para além da arena esportiva e que, segundo Sánchez e Guterman, cria-se uma série de imagens-sínteses da cidade como elemento de suporte para a cidade-marca, construindo imaginários em diversas escalas (SÁNCHEZ; GUTERMAN, 2016, p. 222). No caso do Rio de Janeiro, que tem usado como referência a cidade de Barcelona, um conjunto de instrumentos simbólicos, campanhas, peças publicitárias, arquiteturas emblemáticas (ex: Museu da Ciência), logomarcas, filmes, jingles, e até um jogo de tabuleiro “Banco Imobiliário Cidade Olímpica” são instrumentos que desenham o marketing de venda da cidade renovada (SÁNCHEZ; GUTERMAN, 2016, p. 222).

O que fica evidente nesses processos é a enorme força que limita o livre exercício do direito à cidade. Vivemos uma escala de urbanização de tal modo crescente e incontrolável nos últimos cem anos que tem se tornado difícil até mesmo a reflexão sobre o tema. No caso da cidade do Rio de Janeiro, o que se destaca é uma história de feroz segregação social e de uma urbanização descolada de planejamento, desde o período colonial, apesar dos esforços públicos no período pós-colonial.
Buscamos contextualizar a vida no Rio de Janeiro, de forma a ilustrar o desenvolvimento urbano desigual que constrói um cenário de conflito social, e que pode ser visto nas diversas formas de manifestações sob várias gramáticas territoriais. Sabemos que as cidades nunca foram lugares harmoniosos, sem confusão, conflito ou violência (HARVEY, 2013, p. 25). O Rio de Janeiro, que um dia foi capital do Brasil, também foi palco de muitos conflitos políticos e sociais, marcados por transformações e movimentos sociais de várias ordens, desde a Independência, a abolição da escravidão, passando pela Proclamação da República e pelas obras de reestruturação urbana, como foi o caso da política de Pereira Passos, momentos esses que configuraram guinadas nas diretrizes públicas de pouca participação dos habitantes da cidade. Como afirma David Harvey, na história urbana das cidades em geral, calma e civilidade são exceções e não a regra (HARVEY, 2013, p. 27). Frente a essa constatação, Harvey faz a seguinte pergunta: os resultados desses conflitos são criativos ou destrutivos? E responde que são ambos e que a cidade tem sido um epicentro de criatividade:

Fluxos migratórios em toda parte: elites empresariais em movimento; acadêmicos e consultores na estrada; diásporas tecendo (muitas vezes clandestinamente) redes através de fronteiras; ilegais e clandestinos; os despossuídos que dormem às margens e mendigam nas ruas, rodeados de grande audiência; as limpezas étnicas e religiosas; as estranhas misturas e confrontos improváveis – tudo isso é parte integral do turbilhão da cena urbana, tornando as questões de cidadania e dos direitos daí derivados cada vez mais difíceis de definir, no exato momento em que eles se tornam mais vitais de estabelecer frente às forças hostis de mercado e à progressiva vigilância estatal. Concluímos daí que o direito à diferença é um dos mais preciosos direitos dos citadinos. A cidade sempre foi um lugar de encontro, de diferença e de interação criativa, um lugar onde a desordem tem seus usos e visões, formas culturais e desejos individuais concorrentes se chocam (HARVEY, 2013, p. 27). 

 A cultura na cidade nesse contexto se delineia, como já nos referimos, citando Faranak Miraftab, num esforço mediante a ação de atores em espaços inventados, em contraponto aos espaços convidados que, nesse processo, evidenciam as diferenças, numa interação criativa com formas e desejos individuais distintos e conflitantes. À medida que as reações e conflitos emergem, isso significa que a cidade não atende aos nossos desejos e nos vemos impelidos a questionamentos sobre como estamos vivendo e o que queremos. O direito à cidade se articula com essas forças entre desejo e sonhos. Mas como assegurar a cidade que queremos? Harvey nos estimula a nos envolver individual e coletivamente, fazendo a cidade através de nossas ações diárias de engajamento político, intelectual e econômico (HARVEY, 2013, p. 29).   

3. Alteridade Urbana

Avançando no entendimento desses processos criativos na cidade, se faz necessário entender os conteúdos e as dinâmicas do pensamento dos artistas, face às suas representações sejam de ordem estética, social e política. Para tanto é importante perceber que o contexto desses movimentos, atravessam um conjunto de transformações, que incidem sobre o sujeito, marcadas pelo deslocamento de suas velhas identidades para o sujeito moderno, em detrimento do sujeito unificado, e que desencadeia segundo Stuart Hall, no que ele chama de "crise de identidade". Isso é visto como um processo de mudança que desloca as estruturas centrais da sociedade e abala as antigas referências que davam ao indivíduo ancoragem estável no mundo social (HALL, 2003, p. 7).

Nessa perspectiva, Hall afirma que a identidade é formada ao longo do tempo por processos inconscientes, e não é algo inato existente dentro da nossa consciência. Ele alude à falta de inteireza, que é preenchida a partir do nosso exterior pelas formas com que imaginamos sermos vistos pelo outro (HALL, 2003, p. 38-39). De certa maneira, estamos o tempo todo um significado estável da nossa identidade, mas ela está constantemente perturbada pelas diferenças, subvertendo nossas tentativas de criar mundos fixos e estáveis (HALL, 2003, p. 41).

As teorias sociais não dão conta de explicar as profundas transformações na nossa sociedade e não alteram seus discursos. Através da cultura como conhecimento, pensamento e consciência, o indivíduo tem a possibilidade de vivenciar e experimentar as diferenças e consequentemente os diferentes saberes, compartilhando com o outro suas experiências. Trata-se, como diz Hall, de se pensar a cultura, não em um sentido unificado, mas como dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade (HALL, 2003, p. 61-62).

Os GLs neste sentido, entendidos como uma manifestação cultural, dispõe desse dispositivo discursivo de experiência na cidade. No pensar da socióloga Paola Berenstein Jacques, essas experiências são verdadeiras experiências de errâncias urbanas, produzidas pelos errantes: 

Os errantes são aqueles que realizam errâncias urbanas, experiências urbanas específicas, como possibilidade de crítica, resistência ou insurgência contra a ideia de empobrecimento, perda ou destruição da experiência a partir da modernidade (JACQUES, 2012, p. 19).

Sendo assim, pode-se pensar que as experiências de errâncias urbanas são possibilidades de experiências de alteridade urbana, que é transmitida pelos errantes através de narrativas errantes (JACQUES, 2012, p. 20). 

Tratando os GLs como experiência urbana de alteridade, e tomados como exemplo na figura 1, perguntamos: os GLs não seriam um "esforço de posicionamento do indivíduo frente a esse sistema global complexo", ou seja, uma tentativa de encontrar um lugar de afeto na cidade? Sendo uma manifestação artística na cidade, o artista como um errante, sua estrutura emocional, seus posicionamentos políticos e todo o seu processo criativo moldam um estado de ser e uma constante reflexão, ativando percepções outras do sensível. Essa dinâmica na potência da criação artística, ativada por nossa vida mental, emocional e social, configura um conjunto de atitudes, estados de espírito, ações, decisões que nos permitem fazer de nossa vida uma cultura que nos faz acessar nosso próprio destino.

É importante destacar que alteridade é um pensamento que vem permeando a filosofia contemporânea, reconhecida por Emmanuel Lévinas como uma saída para a impessoalidade do simplesmente Ser, que busca atravessar a superação da totalidade e do egoísmo do eu-em-si-mesmo, culminando na responsabilidade incondicional pelo Outro, que deve ser substituído ao Eu, e que se torna um instrumento de crítica social como uma nova forma de resgate da humanidade. Lévinas afirma “que é na relação pessoal, do eu ao outro, que o acontecimento ético, caridade e misericórdia, generosidade e obediência, conduz além ou eleva acima dos ser” (LÉVINAS, 1997, p. 269).

A reflexão sobre o conceito de alteridade tem outro aspecto a ser considerado, que é do homem como um ser de “relação”, em que ele se reconhece a partir do outro. Newton Aquiles Von Zuben, na introdução da obra Eu e Tu, de Martin Buber (2009, 27), diz que o fenômeno da relação descrito por ele se constitui através do emprego de vários termos: diálogo, relação essencial, encontro. Ele afirma que relação e encontro têm sentidos distintos: o encontro é algo atual, um evento que acontece atualmente. A relação engloba o encontro, abre a possibilidade da latência e possibilita um encontro dialógico sempre novo.

Ainda a respeito do pensamento de Buber, uma das manifestações antropológicas mais concretas da existência na esfera "entre" é o fenômeno da “resposta”. No nível dialógico, palavra e práxis se confundem; em outros termos, diálogos é diapraxis, já que existe uma interação “entre” Eu e Tu. Nesta interação, para Buber, a “resposta” pode ser o amor, o amor não como possuído pelo Eu, não como sentimentos, pois estes o homem já os tem, mas o “amor” como algo que acontece entre dois seres, além do Eu e aquém do Tu, na esfera “entre” os dois (BUBER, 2009, p. 33).

Alteridade urbana pensada sob esses conceitos busca esse deslocamento do eu-por-mim-mesmo, desse estado narcísico e de egoísmo, para a possibilidade de encontro com o outro, o Eu e Tu, numa responsabilidade ética, preservando as individualidades e diferenças, mas numa comunicação dialógica. Neste sentido, os GLs, trazidos como exemplo neste artigo, com seu diálogo visual e de escrita na pele dos muros da cidade, contribuem para uma consciência de valorização do outro, iluminando com seus textos e reflexões as condições sociopolíticas em que o espaço urbano e a vida do citadino estão imersos na contemporaneidade. Na Figura 2 a seguir expomos de forma sintética essas passagens dos atravessamentos da arte, com o pensamento dialógico e a alteridade.

Figura 2 - Pensamento Dialógico e Alteridade – imagem criada pela autora do texto


4. Entrelaçamentos Transdisciplinares

Traçamos este artigo com uma breve contextualização da cultura nas cidades, em especial a cidade do Rio de Janeiro – tomada aqui como um exemplo paradigmático de cidade – em seus aspectos de transformação mediante políticas públicas urbanas. Também apontamos em alguns aspectos da mudança na arte contemporânea a partir da utilização do espaço da cidade para manifestações artísticas, uma ideia delineadora na construção de nossa visão dos GLs.
Em se tratando de Grafites Literários (GLs) reconhecemos a importância da relação entre cidade e literatura, que vai se compor com sentidos poéticos e com os posicionamentos por parte dos escritores na construção de linguagens e personagens que espelham o cidadão e a cidade através dos tempos até os dias atuais.

Alguns aspectos podem ser observados nos GLs, que expõem as seguintes questões: 1. De natureza identitária, o que une as diferenças, distinções e multiplicidades. Aqui podemos reconhecer os aspectos culturais, poéticos e espirituais. 2. De natureza da alteridade, da relação necessária que o ser reconhece com a alteridade, o outro que lhe foi apartado, que é estranho ou que o complementa. Nas cidades antigas e modernas, é a economia e a política que apartam os humanos e os classificam em diferentes e hierárquicos. O reconhecimento da alteridade é oferecido simbolicamente pela arte, seja pictórica, seja poética. 3. De natureza do diálogo, do confronto que busca reconciliação e unificação num plano superior. O diálogo e a reconciliação se fazem possíveis porque há alguma predisposição para tanto. Percebe-se isso nas passagens sobre Martin Buber e Emmanuel Lévinas, onde a alteridade busca atravessar a superação do egoísmo do eu-em-si-mesmo, culminando na responsabilidade incondicional pelo outro. A arte e a literatura também são elementos dessa predisposição; 4. De natureza da ordem, do sistema, da máquina, da conformação. Aqui estamos diante da política burocrática e da economia do capital ditando, por força e circunstâncias, as regras a serem seguidas no comportamento, nas atitudes e nas visões dos cidadãos. Se a economia divide os humanos em classes e hierarquias, aqui ela também dita regras impostas através das políticas de Estado.

Esses quatro aspectos, ou melhor, dimensões, da vida social e urbana são estudados, em geral, parcialmente, através das disciplinas em que a ciência social moderna se acha dividida. Numa perspectiva transdisciplinar, pela qual se reconhecem os entrelaçamentos desses aspectos, suas mútuas influências, seus modos táticos de se posicionar a cada instância da realidade, nosso objeto de estudo, os GLs, se encontra na dimensão da exterioridade, da distinção, do simbólico. Este objeto diz o que o outro pode entender, ele remete para além de si mesmo, ele é arte. Por ser simbólico e certamente singular, o GL pode servir tanto de distinção em si quanto de unificação com o outro. Sua presença na cidade advém do desejo e da vontade do artista, porém estes são mediados pelas circunstâncias da natureza da identidade da cidade, da vontade de diálogo e da imposição da norma do Estado.

Para pensar no entrelaçamento transdisciplinar com diversos eventos, abertos e espaçados ao longo do tempo, nas dinâmicas percebidas nos escritos dos GLs, adotamos a ideia da Fita de Moebius como elemento gráfico que nos alude ao Sistema de Interior/Exterior. Trata-se de um objeto físico que pode ser facilmente construído com uma tira de papel, e que, através de uma torção, antes que uma extremidade seja colada na outra, tem como resultado um objeto onde o direito e o avesso estão contidos um dentro do outro. Não vamos aqui nos apoiar em aspectos matemáticos ou numa geometria analítica em relação à fita, mas sim utilizá-la como um sistema que nos ajuda a observar as variáveis que envolvem os GLs, para entender essas manifestações a partir de uma estrutura visual.


Figura 3 - Fita de Moebius II, M. C. Escher, 1963.
Fonte: https://amusearte.hypotheses.org/2072

No campo das artes visuais essa representação foi utilizada por importantes artistas, como é o caso do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (M. C. Escher), que fez uma xilogravura da fita, colocando na superfície nove formigas (Figura 3), demonstrando a realidade de como o espaço se comunica com o dentro e o fora, sob uma lógica esquemática de representação, não orientada e não linear. Isto significa dizer que o dentro e o fora não são distintos entre si, a relação entre as duas faces da fita se destaca como sendo de superfícies não orientáveis, mas que, ao mesmo tempo, não deixam de ser orientadas. Ela ilustra claramente o sentido do dentro e do fora entrelaçado, num movimento em sentidos opostos que, ao mesmo tempo, passam pela superfície.

Nessa reflexão sobre a Fita de Moebius, o caminho dos GLs, tal qual das formigas, abre inflexões para percepção de que os mesmos, não são apenas um objeto de manifestação externa na urbe, mas também resultado de um produto elaborado por sujeitos que se conduzem mediante desejos e sonhos envolvidos em mecanismos motivadores de um fazer na cidade, onde a cultura assume papel de destaque, emergindo em espaços opacos e em zonas de resistência, no dizer do geógrafo urbano Milton Santos (1994, p. 39). Do ponto de vista urbano, os deslocamentos na cidade, local onde essa centralidade espacial ganha significados, colocam o caminhante na situação de leitor, e isso postula uma posição de significantes e de significados em relação ao outro, num complexo cultural, ou até mesmo psicológico, perante cadeias de metáforas infinitas, como diria Roland Barthes (1985, p. 187).

Uma formiga que caminha pela fita, e passa de uma das faces aparentes para a outra sem ter necessidade de passar pela borda revela a transversalidade dos acontecimentos, que percorre por  aspectos de exterioridade, tais como os processos históricos da cidade, cultura e arte, mas também pela interioridade em seus aspectos filosóficos e poéticos, circunscritos por aqueles que constroem de forma textual os escritos dos GLs. Assim resumidamente podemos classificar esses entrelaçamentos da seguinte forma:

Aspectos                                      
Históricos / Antropológicos
Poéticos / Culturais
Filosóficos / Etnográficos               

Conceitos
Trajetória / Percurso
Culturais Interior / Dentro
Exterior/ Fora

Visto sob esta perspectiva, quando a partir de um determinado caminho, passeando pela cidade, descortinando sensações e afetos, discorrendo sobre os GLs e suas manifestações textuais, a arte se assume como um poema, que desliza na direção do fora em conjunção com uma paisagem interna. Por fim, o que queremos dizer é que, ao invés de operar com diferentes registros, mapeados por disciplinas, nos é mais consequente situar a torção, tal qual na Fita de Moebius, onde o interior está conectado ao exterior, sabendo que a história se dilui na superfície, mas reaparece na superfície contrária, se deslocando e retornando num movimento contínuo. Assim, em tempos distintos a filosofia toca a história, a etnografia toca a poesia, a antropologia toca a arte, a arte toca a história e assim por diante, onde todas as disciplinas são tocadas entre si, criando narrativas, com a sua própria fratura e/ou dissolução, mas, ao mesmo tempo, se somando à estrutura de outras narrativas, e os GLs são um exemplo vivo e atual dessas transversalidades. 

5. A poesia continua ...

A Poesia Continua porque a história não acabou e nem vai acabar, pode se transformar, até transmutar, mas antes de tudo experienciar um continuum, que se apresenta mediante as constantes transformações que as cidades, a arte, a filosofia e todos os saberes que formam o sentido humano passam através dos tempos.
Poesia antes de mais nada, como diz João Camillo Penna (2017) é ato, ação, experiência. Diante disto, a cidade vai sendo reveladora dessas experiências e abraça os escritos produzidos pelos artistas, mas conduzindo para outro, “num acesso à verdadeira alteridade, não como percepção, mas tratando-o como tu, isto é, falando ao outro antes mesmo de falar dele”, como diz Graziano Ripanti, na introdução do livro Violência do rosto, de Emmanuel Lévinas (2014, p. 8).
Seguimos poetizando, o gesto da caligrafia que modela os sentidos dos GLs é um gesto que reage às urgências, um esforço para sobreviver frente às questões sociais. De fato, se trata de encontros e poemas visuais que não são formalizados, mas que criam um sensível no social e político.

Referências

BARTHES, Roland. A aventura semiológica. Lisboa: Edições 70, 1985.
BENTES, Ivana. Ocupa Tudo! Extinção, ressurreição e insurreição da Cultura. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2016/10/ocupa-tudo-extincao-ressurreicao-e-insurreicao-da-cultura-9780/ .Acesso em: 20 maio 2021.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora, 2017.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Editora Dp&A, 2003.
HARVEY, David. A liberdade da cidade. In: Cidades rebeldes – Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas pelo Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial – versão E-Book, 2013. Disponível em: https://mega.nz/folder/vOpwmQiJ#nJFgpdsE0mCF0yOOQYqCA/folder/LKpiHYYK. Acesso em: 23 mar. 2020.
JACQUES, Paola Berenstein. Elogio aos errantes. Salvador: EDUFBA, 2012.
LÉVINAS, Emmanuel. Violência do rosto. São Paulo: Editora Loyola, 2014.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós – ensaios sobre alteridade. Petrópolis: Editora Vozes, 1997. Disponível em: https://olimpiadadefilosofiasp.files.wordpress.com/2012/03/entre-nos-ensaios-sobre-a-alteridade-emmanuel-levinas.pdf  . Acesso em: 18 out. 2022.
MIRAFTAB, Faranak. Insurgent Planning: Situating Radical Planning in the Global South. Planning Theory, 2009, p. 32-50. Disponível em: https://journals.sagepub.com/home/plt . Acesso em: 18 jun. 2020.
NOVAIS, Pedro. Urbanismo na cidade desigual: O Rio de Janeiro e os megaeventos. In: VAINER, C. et al (Org.). Os megaeventos e a cidade. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016, p. 47-99.
PENNA, João Camilo. O dispositivo questions théoriques. In: GLENADEL, Paula et al (Orgs). Poesia e interfaces: operações, composições, plasticidades. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017. Disponível em:<https://joaocamillopenna.files.wordpress.com/2017/03/dispositivo-questions-thecc81oriques-versacc83o-para-leitura.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2017.
SÁNCHEZ, Fernanda; GUTERMAN, Bruna. Disputas simbólicas na cidade maravilhosa: atores, instrumentos e gramática territorial. In: VAINER, Carlos et al (Orgs). Os Megaeventos e a cidade: perspectivas críticas. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016.
SANTOS, Milton. Técnica Espaço Tempo – globalização e meio técnico científico informacional. São Paulo: Editora Hucitec, 1994. Disponível em: http://geocrocetti.com/msantos/tecnica.pdf. Acesso em: 27 set. 2021.
VAZ, Lilian Fessler; SELDIN, Claudia. Culturas e resistências na cidade. Rio de Janeiro: Rio Books, 2018.


Artigo publicado no Congresso Scientiarum XV em 2022

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