Narrativas Visuais: grafites literários relações e transgressões no espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro
Ana Prado
Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE), Universidade Federal do Rio de Janeiro.
anaprado.arte@gmail.com
1. Informações Gerais
Esse artigo busca analisar três grafites encontrados no centro da cidade do Rio de Janeiro e que denominamos de "Grafite Literário" (daqui por diante vou me referir a eles com a sigla "GL"), por ser um tipo de grafite onde o uso da palavra é mais fortemente usado para expressar algo, para conversar e se manifestar no espaço urbano. Busca-se identificar relações e transgressões, que possam trazer a luz dinâmicas de ocupação do espaço urbano e de como a cidade vem sendo afetada por essas iniciativas. Diferentemente dos grafites desenvolvidos com desenhos ou imagens, os GLs são uma maneira rápida e direta de falar e expressar situações de conflitos e poéticas afetivas. O gênero poesia está sendo abordado aqui, por se assemelhar em muito com as frases curtas e ou versos, rimas e estrofes de um GL, de forma a nos auxiliar nessas reflexões. Dois autores de poesia serão utilizados como referência, Manoel de Barros e João do Rio, porque possuem narrativas que nos ajuda a analisar o que pode estar por trás de um GL na cena urbana da cidade do Rio de Janeiro. Também são referenciados outros pensadores tais como Milton Santos importante para reflexão sobre a cidade globalizada, Henri Lefebvre por nos trazer questões do uso do espaço urbano e Marisa Florido pontuando a questão das artes na cidade.
2. A cidade como esforço de poesia
O fenômeno urbano, nos seus primeiros grupos humanos (coletores, pescadores, caçadores, talvez pastores), marcou e nomeou as topias (lugar), sendo mais tarde consolidado pelos camponeses como espaço urbano (LEFEBVRE, 2002, p.20). Na história, esses lugares foram cheios de significados, ligados a rituais religiosos, fruto de certa inquietação. Merece destaque as cavernas de Lascaux e Altamira, entre outros, lugares que desempenharam papel importante social, com suas pinturas rupestres, seja para rituais ou identificação de suas presas, abrindo caminho para as primeiras experiências urbanas, e para as cidades posteriormente (MUMFORD, 2004, p.13 e 14).
Na passagem desse tempo tão remoto da cidade, para as experiências de vida urbana, hoje, o mundo globalizado é o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Segundo Milton Santos (2010, p.23) a cidade é o campo onde a representação desse mundo espelha em suas mais variadas formas de expressão, acontecimentos de diversas naturezas, artísticas, culturais e políticas. A globalização abriu espaço para discursos urbanos, que reagem ao mundo desigual, fruto de uma globalização perversa (SANTOS, 2010, p. 6).
Esse mundo globalizado ao longo da história das cidades vem ativando potências artísticas que se notabilizaram em aspectos sociais, e mais fortemente a partir da década de 90, se expandiu com maior ênfase na ocupação dos espaços públicos. O artista torna-se então um mediador social, ativando mesmo que temporariamente o convívio e em alguns casos como um etnógrafo de micro estratégias de territorialização, em outros interferindo através de pequenas táticas no habitat, evocando situações rápidas e perturbadoras, pequenos ruídos na entropia urbana (FLORIDO, 2017). São diversas as linhas de diálogos que colocam em cheque vivências da arte de várias naturezas: arte colaborativa, arte participativa, arte engajada, ativismo, coletivo de arte, arte comunitária, artista em residência, site specific.
No campo da arte cada uma dessas vivências foram se constituindo num processo histórico desencadeado pela arte conceitual, que num desvio de percurso, desloca o objeto do cotidiano para outra perspectiva, dando a chance de uma mudança de olhar do espectador e ativando sensações outras, diferentes da mera apreciação de uma pintura e ou de uma escultura nos moldes da tradição na arte. Nessa perspectiva a cidade passa a ocupar um lugar de destaque e um campo fértil para essas transgressões, repleta de iniciativas artísticas, que transitam com suas diferentes linguagens, num esforço de comunicação com o público, seja com falas de contestação ou amorosas. A cidade se transforma num lugar que reproduz modos específicos, individuais e diversos da totalidade do mundo, se torna um lugar de afeto.
É importante destacar que estudos sobre grafite em geral, já foram amplamente discutidos e sua forma de expressão transitou da transgressão e rebeldia, para ocupar lugar de destaque nas galerias de arte, e de se inserir no mercado através do interesse dos empresários em divulgar suas marcas e produtos. Hoje o grafite também é utilizado para compor esteticamente os espaços de revitalização implantados pelos projetos de reestruturação urbana como é o caso no Rio de Janeiro do Porto Maravilha. Mas em especial o GL, ocupa um lugar diferenciado nas cidades, porque sua forma de comunicação é simples, e as reflexões com suas frases de humor, crítica, poética são quase sempre efêmeras, se apropriando de técnicas de impressão digital sobre papel, lambe lambe, spray. Ao mesmo tempo essas frases estão sujeitas a sobreposições de outras frases, por artistas e ou pessoas anônimas, criando outros significados sobre a proposta original. Portanto o caminho aqui percorrido busca identificar que tipo de conflitos os GLs estão trazendo para a cena urbana na cidade do Rio de Janeiro e de que maneira a cidade vem se relacionando com essas manifestações.
2.1 Pessoas desimportantes servem para poesia
Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia (...)
Um chevrolé gosmento, coleção de besouros abstêmios, o bule de Braque sem boca, são bons para poesia (...)
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia (...)
O que é bom para o lixo é bom para poesia (...)
As coisas jogadas fora têm grande importância - como um homem jogado fora (...)
(BARROS, 1970, p.11-14)
Para ilustrar vamos iniciar nossa conversa com o poeta Manoel de Barros, cujo olhar para o mundo sempre nos surpreendeu. Extremamente atento aquilo que muitas vezes nos passa despercebido, seja num galho de árvore ou uma pedra, mas que na delicadeza da sua poesia se apresenta com uma riqueza de imagens e possibilidades. Sua linguagem é simples e ao mesmo tempo complexa, e requer certa abertura para vivências desconcertantes, já que um "chevrolé gosmento, ou um cuspe à distância, significa o que? Ficamos nos perguntando o quanto essa frase desconcertante nos leva para um mundo onírico e que provavelmente nos desloca de um lugar de conforto para a reflexão sobre o que é um chevrolé gosmento, ou mesmo um cuspe a distância que lembra nossas brincadeiras de infância. No verso "o que é bom para o lixo é bom para a poesia", podemos encontrar no artista Vik Muniz com o seu belo trabalho de fotografia e registrado no filme documentário "Lixo Extraordinário" , o quanto esta afirmação é verdadeira. Quando Manoel de Barros diz que serve para poesia, talvez seja porque na sua generosa forma de se comunicar, ele vai dar voz a uma inquietação, ouvindo sua mais silenciosa forma de estar, dizendo que se importa, e convidando o leitor para um convívio social, atento ao que está a nossa volta e, portanto resgatando, nem que por um instante a sua mais profunda natureza, em diálogo com a totalidade do ser.
Assim, a representação de um GL na parede ou muro, pode aparentemente não servir para nada, mas serve para poesia, serve para contestar, serve para falar e se comunicar com o outro e com a cidade. No rastro dessas experiências de representação ao longo da história do homem, saindo da parede para uma evolução gráfica, em especial na cidade do Rio de Janeiro, o que no passado se manifestava e ainda se manifesta através de uma iconografia política nos cartuns, revistas entre outros, o GL hoje é mais uma forma de expressão da arte, colocando em questão o público e o privado.
Como exemplo na Figura 1 - Vende-se Carne Negra tel 190 encontramos uma forte crítica social e política, da discriminação racial e dos conflitos constantes de mortes da população negra. O telefone 190 é o numero da policia militar para pedido de ajuda a qualquer tipo de agressão sofrida ao cidadão. Mas aqui, esse número representa o ultimo lugar onde principalmente a população negra poderia pedir ajuda. Observamos que nesta simples frase está descrito um conflito, que se perpetua desde o período da escravidão, portando não muito diferente dos anúncios de venda de escravos do século retrasado, como pode ser visto na Figura 2 - Vende-se huma Preta de Nação, rapariga, parida ha trez semanas da primeira barriga, com muito leite, e bom; e o filho masculino: ella boa de engomar liso, e ensaboar, tudo com perfeição e o mais serviço de huma casa de família; quem a pretender procure na Rua do Alecrim, n. 147., datado de 04/09/1922.
Figura 1 - Grafite encontrado na parede do Banco Itaú na rua da Assembléia,
centro do Rio de Janeiro em 25/04/18
Figura 2 - Vende-se huma Preta de Nação.. Jornal O Volantim 04/09/1822
O destaque do anuncio de 1822 está no fato da preta ter muito leite, portanto ideal para ama de leite, e de ter parido filho homem, bom para o trabalho pesado no futuro, informações muito comum, para venda de escravos, antes da abolição da escravatura, promulgada em 13 de maio de 1988. Já o GL de 2017. Hoje, mesmo depois da promulgação da constituição de cinco de outubro de 1988, o GL se destaca pela afirmação de que a população negra ainda é exposta à violência e à discriminação racial, passado quase dois séculos de distância entre ambos os anúncios. Os dados não mentem, no Brasil em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros, cerca de 43 negros a cada 100 mil habitantes, ao passo que a taxa de não negros é de 16 a cada 100 mil habitantes .
A poesia de Manoel de Barros, no trecho "As coisas jogadas fora têm grande importância - como um homem jogado fora" (BARROS, 1970, p.14), também vai encontrar essa crítica, em que se percebe sem dúvida alguma, que o ser humano vive um constante conflito social, sua poesia é contundente nesse sentido, para reflexão da cidade hoje. Quantos homens são jogados fora, quantas vidas são desvalorizadas em meio às cidades do passado e atual. Existe uma distopia e ao mesmo tempo uma esquizofrenia, à medida que as cidades acolhem os vetores de globalização, ao mesmo tempo em que produz uma acelerada produção de pobres e excluídos, tudo isso numa cidade cada vez numerosa (SANTOS, 2010, p.14).
Uma possível resposta para a evidência desses conflitos, não sendo a única, talvez seja que as nossas cidades ainda possuem grandes bolsões de miséria e carência de serviços públicos. No caso do Rio de Janeiro as favelas não deixam dúvidas, sofrem com a falta de infra estrutura e principalmente sem reconhecimento do seu território na malha da cidade. Apesar de esforços de projetos e investimentos, como foi o Programa Favela Bairro , ainda vivemos numa "Cidade Partida" . Cabe destacar, e aqui vale o pensamento do Darcy Ribeiro sobre as políticas econômicas que atravessam o Brasil desde o seu surgimento:
"O Estado Brasileiro não tem nenhum programa de reestruturação econômica que permita garantir pleno emprego a essas massas dentro de prazos previsíveis. Que fazer? Prosseguir o genocídio dos pioneiros que na terra de ninguém da Amazônia procuram seu pé de chão?(...) Insistir num liberalismo aloucado, que regeu a economia desde 64, enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres? (...). Continuar imbuídos da ilusão de que o melhor para o Brasil é o espontaneísmo, regido pelo lucrismo dos banqueiros, que acabará por resolver nossos problemas? Até quando este país continuará sem seu projeto próprio de desenvolvimento autônomo e auto-sustentável? (RIBEIRO, 1995, p. 203)"
Seguimos buscando respostas, as pessoas reagem, se unem em busca da sobrevivência e o artista nesse contexto percebe essas contradições, atua, criando ruídos reveladores nesses escritos, provocando sensações e sentimentos diversos.
Na contramão do GL anterior, a Figura 3 mostra um estêncil com pintura associado à fotografia da escritora Conceição Evaristo , com a seguinte frase na parte superior do grafite, "Uma mulher negra com uma faca é uma arma, uma mulher negra com um livro também". Que frase maravilhosa essa, a idéia de deslocar o olhar, para uma visão comprometida diante do conflito, ou seja, uma ação de não violência, apenas usando o livro como um elemento de poder, o que afirma o pensamento de Darcy Ribeiro, que muito lutou pela educação no Brasil.
Figura 3- Grafite encontrado na Rua do Carmo, centro Rio de Janeiro em 17/05/19
2.2 A rua nasce como o homem, do soluço, do espasmo
"A rua nasce como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita de esforço exaustivo de muitos seres (...). A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. (RIO, 2008, p.30)".
Encontramos em João do Rio um dos mais importantes jornalistas do início do século passado, que soube como ninguém revelar o espírito da rua na sua época, e que sem dúvida alguma ainda nos surpreende com suas crônicas. Em se tratando de GL, não poderíamos deixar de lembrar das suas definições e sentimentos em relação à rua, especialmente no que diz respeito à cidade do Rio de Janeiro.
Assim, trazemos aqui a Figura 4, o GL "Eu Amo a Rua", o qual provavelmente é um verso que tocaria profundamente o coração de João do Rio. Quando ele diz que a rua é a mais igualitária da obra humana, ele coloca o espaço da rua como um verdadeiro lugar de encontro, de possibilidades, uma eterna imagem da ingenuidade. Nesse contexto o GL nos convida a acreditar que a sociedade urbana é possível, e que a prática social está em marcha, à prática urbana está em via de constituição, apesar dos obstáculos que a ela se opõe (LEFEBVRE, 1999, p 28). Profundo observador da rua, João do Rio era um flâneur, tinha o vírus da observação e da vadiagem, de andar por aí dia e noite. Ao se amar a rua nos abrimos para infinitas possibilidades de vivências, até ser inútil, e como dizia Manoel de Barros, o inútil também serve para poesia.
Figura 4 - Grafite encontrado na Rua do Carmo,
centro do Rio de Janeiro em 25//04/18
3. Conclusão
No entrelaçamento das questões aqui abordadas, arte e artivismo, espaço urbano e poesia buscamos identificar possíveis conflitos ou simples expressões de falas narradas nos muros da cidade do Rio de Janeiro.
Não podemos deixar de descartar nesse processo dos GLs, a dimensão pública e privada que rege a vida das pessoas na cidade contemporânea. Muitas das manifestações são de artistas e ou pessoas anônimas, que por algum motivo tornam público um sentimento, que sai da esfera privada e alcança a vida pública, e quem sabe dando voz a necessidade de uma relação social mais impessoal, se deslocando do psiquismo interior, onde as pessoas estão extremamente preocupadas com a sua vida interior, e indo em direção a uma res publica que representa em geral aqueles vínculos de associação e compromisso mútuo fora dos laços de família, como afirma Richard Sennett (1988, p.16). Ao mesmo tempo a questão da globalização das cidades coloca em discussão os limites do estado nacional frente a uma globalização perversa, que traz um modelo hegemônico planejado, que atua de forma individual, indiferente a seu entorno. Na teia desses acontecimentos, os Gls reclamam por uma cidadania, a qual depende de soluções locais, dentro da nação, numa nova estruturação político-territorial, com a uma redistribuição de recursos, prerrogativas e obrigações (SANTOS, 2010, p.113).
Na cidade contemporânea, conforme afirma Henri Lefebvre (LEFEBVRE, 1999, p. 29) a rua é o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros. Lefebvre se coloca como um espectador da rua, porque ele vê na rua um teatro espontâneo. Em sendo um teatro, é nesse lugar que o artista constrói seu espaço de fala e potencializa, no caso dos GLs, sua forma de expressão nas palavras. Então, no fluxo desse processo em curso nas cidades globalizadas, os artistas vão viver conflitos e questionamentos no campo das artes, com mudanças significativas, percorrendo um deslocamento do objeto artístico, para contingências sociais e práticas que reformulam um devir daquele contexto inicial, da posição entre artista e o público. Nos grafites de uma maneira geral se desenham essas novas outras formas de arte, sai o objeto, entra a palavra, como é o caso do GL, que dentro do movimento que se inicia a partir da década de 90, podemos classificá-los como poéticas da vida, acreditando na experiência como fator de transformação individual, mas ao mesmo tempo apostando no alcance ampliado da transformação social (VINHOSA, 2010, p.200).
4. Referências
ATLAS DA VIOLÊNCIA 2019. Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34784&Itemid=432 . Acesso em: 21 nov. 2019.
BARROS, Manoel de. Matéria de Poesia. Rio de Janeiro: Record, 2007.
FLORIDO, Marisa. Cursos livres - Transformações na prática artística: entre a rua e o ateliê: o artista e a cidade, parte1. Vídeo disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=f1SpEwnSD5k. Acesso em: 21 nov. 2019.
LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.
MUNFORD, Lewis. A Cidade na História: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2010.
SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público: As tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
VENTURA, Zuenir. Cidade Partida. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1994.
VINHOSA, Luciano. O que a arte faz? In: VINHOSA, L. (org.). Horizontes da Arte. Rio de Janeiro: Nau, 2010, p 185-206.
Artigo publicado no Congresso Scientiarum XII em 2019



