A transdisciplinaridade no pensamento indígena
A pluri ou multidisciplinar é a justaposição de várias disciplinas sem nenhuma tentativa de síntese. É o modelo que predomina na universidade francesa.A interdisciplinaridade trata da síntese de duas ou várias disciplinas, instaurando um novo nível de discurso (metanível), caracterizado por uma nova linguagem descritiva e novas relações estruturais.A transdisciplinaridade é o reconhecimento da interdependência de todos os aspectos da realidade. A transdisciplinaridade é a consequência normal da síntese dialética provocada pela interdisciplinaridade, quando esta for bem sucedida (WEIL, 1993, p. 31).
O conjunto de disciplinas, visto sob o olhar da transdisciplinaridade, ou seja, da interdependência dos aspectos da realidade, permite distinguir, separar, opor, e, portanto, dividir relativamente os domínios científicos, mas, ao mesmo tempo, induzir uma comunicação sem operar a redução como diz Edgar Morin (2005, p. 138). Pierre Weil, amplia essa visão e reconhece essa interdependência sistêmica em muitos outros aspectos, e que há um sentido, e que este é o sentido da vida, o que, junto com a alegria são inerentes a essa nova visão transdisciplinar (WEIL, 1993, p. 31).
Essa visão de Weil incorpora soluções que podem existir no plano da ecologia/natureza, ecologia pessoal, sociedade e da psicologia planetária, que delineia o desejo de viver em paz, associado a uma consciência cósmica e uma visão holística, como podemos ver na Figura 1 a seguir.
Figura 1 – Arte de viver em paz
Fonte: Uma visão transdisciplinar de um conjunto de disciplinas, inspirada em modelo de representação por Pierre Weil (WEIL, 1993, p. 57).
A arte de viver em paz é o que propõe a transdisciplinaridade, passando por uma interdisciplinaridade que alia sociedade, natureza e homem, cujos aspectos apontam para “um novo ponto focal que permite a convergência das ciências físicas e sociais, das artes e das letras, da filosofia e dos conhecimentos que transcendem o domínio racional da totalidade das relações do homem com o mundo” (WEIL, 1993, p. 32).
Se trata de uma transdisciplinaridade axiomática comum a várias disciplinas dentro das ciências, das filosofias, das artes ou das tradições espirituais, mas também de uma transdisciplinaridade geral definida na Declaração de Veneza, derivada de um Colóquio promovido pela UNESCO em 1986, que proclama uma “pesquisa verdadeiramente transdisciplinar em intercâmbio dinâmico entre as ciências exatas, humanas, arte e tradição” (CREMA, 1993, p. 141).
3. Há luz no fim do mundo
Adiar o fim do mundo é necessário porque, como sabemos, um outro fim do mundo é possível ... O fim por exemplo, daquele outro mundo suscitado pela negação do mundo – o mundo melhor que imaginamos estar construindo sobre as ruinas do mundo (KRENAK, 2020, p.80).
Ailton Krenak é um líder indígena, nascido na região do Rio Doce, região afetada pela exploração de minério. Em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, Krenak faz uma crítica ao conceito de humanidade “como algo separado da natureza”. Ele diz que não é possível pensar uma humanidade que não reconhece que “o rio que está em coma é também nosso avô” (KRENAK, 2020, p.22).
O reconhecimento de uma entidade da natureza, como um ser tão próximo de nós como nossos parentes, nos faz repensar dimensões de como estamos nos nutrindo de conhecimentos fúteis, e distantes de algo tão simples, que é aceitar a natureza, tal qual como nossos pais – aqueles que nos acolhem, nos alimentam, dialogam, e nos mostram caminhos – e que, portanto, nos afetam quando estão doentes. Pensar a natureza sob esta perspectiva, muda tudo na nossa estrutura psíquica, amplia um espectro de partículas amorosas, pois quando observamos uma árvore que cresce de uma simples semente, e se constitui depois de anos em um grande tronco, forte e suficientemente capaz de suportar seu próprio corpo, galhos e folhas, não é nada diferente de uma criança que nasce frágil, dependente e que depois caminha com seus próprios pés, se fazendo adulto, e se constituindo parte de um núcleo familiar. O mesmo acontece com a árvore, que conversa, expande suas raízes para diálogos com o entorno e brilha, quando lhe é permitido viver todo o seu ciclo de vida, que pode durar até mais de cem anos.
Esse lugar de percepção de que não somos isolados da natureza, nos convida a integrar uma “ecologia dos saberes”, como algo necessária à experiência cotidiana, de forma a inspirar nossas escolhas para o lugar que queremos viver como comunidade (KRENAK, 2020, p. 24). Krenak usa esse termo inspirado nas ideias do Boaventura Sousa Santos, que pensa a ecologia dos saberes numa diversidade epistemológica do mundo, associada ao reconhecimento da existência de uma pluralidade de formas de conhecimento além do conhecimento científico (SANTOS, 2007, p. 23).
Se assim o é, Krenak tem toda razão em trazer para o universo humano, os sentidos da natureza e da sua imanência, em constante transversalidade com os diversos tipos de vida, que por aqui circulam milhares de anos. Somos água e um montão de outros materiais, então por que nos isolarmos dessa realidade? Por que nos achamos poderosos e tomamos a força as coisas ao nosso belo prazer?
É importante compreender que a cultura moderna é uma cultura de subjetividade, do eu e do ego, e, nela, este tem grande privilégio – eu mesmo, a minha identidade, segundo nos diz Franklin Leopoldo e Silva (SILVA, 2017). Silva chega a falar que vivemos uma espécie de narcisismo, de egoísmo, uma exacerbação do sujeito, do eu, e que isso leva a um certo distanciamento do outro, de perceber a possibilidade de sua existência. Voltado para si mesmo, o outro parece longínquo; isto tem a ver como nós entendemos a consciência de si (consciência de mim). Essa consciência deriva da filosofia clássica que colocou o ego, o sujeito, como realidade principal, afastando o Outro, ou seja, eu tenho consciência de mim, porque estou em mim, para que eu tenha consciência do outro, eu teria que estar no outro e isso tornou-se um problema ético, pois como só tenho consciência de mim, cuido apenas da minha subjetividade (SILVA, 2017).
Esse é o estilo da nossa civilização e cultura baseada na individuação, onde não depositamos tanto respeito pela individualidade do outro, na subjetividade do outro. Essa separação entre o eu e o outro criou um abismo de características éticas muito comprometedoras da nossa civilização e reforça questões de preconceito e de discriminações de todas as espécies, nos distanciando de uma humanidade digna de respeito ao outro, de uma alteridade. Esse abismo ou separação faz parte de uma visão segundo a qual o outro tem o direito de existir desde que eu conceda a ele esse direito, pois, por si mesmo, ele não o tem; como consequência, se eu quiser, posso eliminá-lo (SILVA, 2017).
Do ponto de vista da ética, Silva faz algumas perguntas que mexem um pouco com esta posição tradicionalmente consolidada a respeito do privilégio do eu, “como seria uma ética em que o princípio da moralidade fosse o outro e não o eu, em que ele me constituísse como realidade ética e não eu a ele? Como seria o mundo em que eu dependesse do outro, e não o outro de mim?”. O próprio Silva responde que existem vários aspectos em que isso é colocado na nossa contemporaneidade, e um deles está no conceito mais amplo de ecologia (SILVA, 2017).
Com a ecologia surge uma tentativa de fazer com que o eu veja o mundo a partir do outro, ou seja, ele pergunta novamente – como será o mundo daqui a duzentos anos, se continuarmos a explorá-lo dessa forma? Haverá mundo para os outros? Se não houver mundo para eles, será que eu não sou responsável por essa catástrofe? A partir daí não seria o caso de adquirir uma certa consciência ecológica para preservar o mundo para os outros?
Neste sentido, o que se evidencia no aspecto ecológico é valorizar o outro mais que a mim mesmo, e viver mais em relação ao outro, ou pelo menos tentar um equilíbrio. A ecologia contribuiu muito para que esse tipo de ética fosse apresentado; mesmo que ainda esteja longe de ser aceita por todos, pelo menos é alguma coisa sobre a qual se pensa, como diz Franklin Leopoldo e Silva. Acompanhando esse pensamento, o sentido ecológico nesta configuração consolida uma ética da alteridade, talvez ainda incipiente, porque os valores consolidados, que são da ordem do ego, ainda são muito fortes e estão longe de sofrer um abalo significativo (SILVA, 2017).
As ideias de Krenak possibilita esse abalo da ordem do ego, no nosso modo de viver, trazendo a partir da alteridade, um sentido de ecologia mais ampliado, ao questionar o significado de humanidade, que não incorpora elementos da natureza, sejam os rios, montanhas e outros animais. Na visão de Krenak, adiar o fim do mundo é na verdade, uma recusa em separar todos esses saberes, mas antes de tudo integrar a diversidade epistemológica da totalidade dos conhecimentos, sejam eles científicos ou de outras dimensões da vida humana.
Chegou a hora, em suma; temos a obrigação de levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa — os índios e todos os demais povos ‘menores’ do planeta, as minorias extranacionais que ainda resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do Ocidente (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.15).
Davi Kopenawa é um pensador indígena, xamã yanomami. Em seu livro a Queda do Céu, em parceria com o antropólogo Bruce Albert, encontramos uma verdadeira epifania de vida, num diálogo entre um branco e um indígena auto determinado na proteção do seu povo e da floresta. Seu nome por si só denota um atravessamento da sua experiência de vida, a qual foi influenciada pelos brancos, que foram viver perto dos yanomamis e que na visão de Kopenawa, “era uma gente de Teosi, que deram a ele o nome Davi, antes mesmo que seus familiares lhe dessem um apelido, conforme o costume dos antigos” (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.70). Mas a grande força manifestada está no seu último nome, que ganhou na fase adulta, ao beber no pé da montanha do vento, o pó dos xamãs tirada da árvore yãkoana, oferecido por seu sogro, e que sob seu poder, viu descer sobre ele os espíritos das vespas kopena (bebedoras do sangue derramado por Arowë, um grande guerreiro do primeiro tempo) que disseram: “estamos com você e iremos protegê-lo, por isso você passará a ter esse nome Kopenawa!” (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.72).
Com essa força de um guerreiro, Kopenawa nos convida a penetrar na sua vida, contando suas histórias, atravessadas por um mundo que contempla a natureza em toda a sua totalidade, estabelecendo nas relações humanas de sua gente, algo inseparável dos demais acontecimentos da floresta e da sua vida espiritual. Neste sentido Kopenawa faz uma critica aos brancos, ao dizer que:
[...] passamos tempo demais com o espírito voltado para nós mesmos, embrutecidos pelos mesmos velhos sonhos de cobiça e conquista e império vindos nas caravelas, com a cabeça cada vez mais “cheia de esquecimento”, imersa em um tenebroso vazio existencial, só de raro em raro iluminado, ao longo de nossa pouco gloriosa história, por lampejos de lucidez política e poética. (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.15).
Eduardo Viveiro de Castro escreve na introdução do livro, que Davi Kopenawa ajuda-nos a pôr no devido lugar as famosas “ideias fora do lugar”, porque o seu é um discurso sobre o lugar, e porque seu enunciador sabe qual é, onde é, o que é o seu lugar (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.15). Essa consciência do lugar, se constitui pelos yanomamis uma visão de respeito ao que recebem e ao que produzem, sem o sentido de propriedade, permitindo a passagem de mão em mão, sem parar dos objetos, que circulam dando um sentido ecológico ao que é produzido:
“Sou um habitante da floresta, não quero ter muitas mercadorias como um branco! Tome esta velha peça de metal que nos vem de Omama. Já a usei o suficiente! Não vou negá-la a você! Leve-a consigo! Vai poder abrir uma roça nova com ela! E depois irá dá-la a outra pessoa! Então, fale de mim para quem ficar com ela e seus parentes. Quero que tenham amizade por mim longe de minha casa! Mais tarde, será minha vez de lhe pedir algo!”. Depois, o convidado, uma vez de volta entre os seus, não vai demorar para dar o mesmo facão a outro visitante. E assim, de mão em mão, ele vai acabar chegando até desconhecidos numa floresta distante. É assim que nossos facões com cabos envoltos em fio de ferro enrolado vão do Brasil até os Xamathari do rio Siapa, na Venezuela, e que, por outro lado, muitos de seus facões de pontas largas e curvadas chegam até nós (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.412).
A percepção dos yanomamis sobre o comportamento dos brancos, como pessoas com “cabeça cheia de esquecimento” e um espírito voltado para si mesmo, é uma afirmação que faz sentido, pois à medida que eles yanomamis não possuem necessidade de acumulação de riquezas, seus espíritos são libertos de posses, se instituindo para as necessidades dos outros, pois acreditam na passagem de mão em mão de tudo que produzem.
É interessante ver a sensibilidade criada nessas trocas e modos de ser, num diálogo generoso, sempre com boas palavras, abertos a receber visitas nas suas casas, criando o que eles chamam de “caminho de pessoas generosas” e, portanto, deixando uma porta aberta de generosidades, numa trilha de mercadorias (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.413). Aqui fica claro, que na vida dos yanomamis, existe um mundo a partir do outro, numa consciência ecológica de preservação, valorizando o outro, mais que a si mesmo. Esses modos de viver, responde aos questionamentos colocados por Franklin Leopoldo e Silva, na página anterior, que aponta para a necessidade de um mundo interdependente do outro, criticando que o grande problema na nossa civilização é o estilo de vida baseada na cultura da individuação. Tal interdependência, abraça um sentido que se amalgama à ecologia dos saberes, numa existência plural e de diálogo (SANTOS, 2007, p. 23).
Esses dois termos, ecologia e diálogo, ressignificam o modo como o homem se posiciona frente aos desafios civilizatórios. A partir da etimologia da palavra ecologia – eco (oikós) significa casa, e logia (logos, λόγος) palavra, conhecimento, relação (FERREIRA, 1999, p. 676), vemos que ecologia nada mais é do que conhecer e se relacionar com a casa, o lugar onde habita, a mãe terra, a casa comum, ou seja, um estudo “entre” os seres vivos, ou “entre” os seres vivos e o meio em que vivem. Já em diálogo (do grego diálogos; latim dialogu), dia significa através; lógico (logos), conhecimento, relação (FERREIRA, 1999, p. 715). Então diálogo significa “através da relação”, onde se estabelece a conversa entre duas ou mais pessoas no “entre” do acontecimento. O “entre” é onde nos refazemos e nos constituímos em poesia, revelada por nossas ações e subjetividades, vivendo as diferenças nas multiplicidades dos seres dispersos, afirmando que somos poemas (MONTEIRO, 2022, p. 92). Essa visão poética se confirma nas ideias de Kopenawa, no que ele entende como ecologia:
Na floresta, a ecologia somos nós os humanos. Mas são também, tanto quanto nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, céu, a chuva, o vento e o sol! É tudo o que veio a existência na floresta, longe dos brancos; tudo o que ainda não tem cerca. [...] Nascemos no centro da ecologia e lá́ crescemos [...] (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.480).
Isso amplia a visão do que é estar em seu lugar, no mundo como casa, abrigo e ambiente, oikós, ou, para usarmos os conceitos yanomami, hutukara e urihi, ou seja, o mundo como floresta fecunda, transbordante de vida, a terra como um ser que “tem coração e respira”, não como depósito de recursos escassos (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.16).
Existe de fato um mundo possível fora de si, e a experiência dos yanomamis confirma uma realidade ética, de dependência do outro, para a sobrevivência dos povos, da floresta e de todos os seres que fazem parte da nossa casa comum. Ao mesmo tempo Davi Kopenawa expõe que neste sistema de relações com o outro, também existem personalidades dispares do senso comum nas tribos, que destoam na forma de agir, em relação à maioria da coletividade, e de como eles lidam com isso:
Quando morre um sovina, nem uma pessoa sequer faz luto por ele. É verdade. Ninguém pode ter amizade ou saudade de alguém que sempre ignorou o sofrimento dos que passam necessidade. As pessoas só comentam sua morte, dizendo: “É bom assim! Ele não parava de nos encher de raiva com suas recusas. Não vamos ficar tristes! Ele não tinha nenhuma generosidade e não se preocupava conosco!”. E então os bens que deixou são destruídos e jogados fora, sem saudade da sua ausência. Ao contrário, se é um homem generoso que morre, todos ficam muito comovidos e muitos são os que choram com dor mesmo (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.416).
Devemos pensar que existem diferenças em qualquer lugar, e que as pessoas se destoam umas das outras, apresentando comportamentos de sociabilidade, contraditórios para o conjunto do grupamento. No entanto, nas tribos dos yanomamis essas pessoas são respeitadas, porém suas ações não são ignoradas, e tem consequências tanto do ponto de vista afetivo, como material. A atitude em vida, remete a sentimentos pós vida pela comunidade, na ausência de saudades e destruição de seus pertences. A simplicidade em resolver determinados conflitos internos, através de sentimentos, que desenha a imagem de um individuo, é um estado de ser e viver, que se harmoniza com a natureza, apenas aceitando ou rejeitando conforme suas ações.
São tantas as diásporas que suscitam o comportamento dos yanomamis, com um espectro de transversalidades, da ordem da consciência social e pessoal, que precisamos absolutamente levar a sério a voz de Davi Kopenawa, porque os índios e todos os demais povos “menores” do planeta, resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do Ocidente (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.15).
5. Caminhar é preciso...
A visão transdisciplinar nos modos operandi de viver e de observar os acontecimentos à nossa volta, inclui uma cadeia de saberes e dinâmicas que nos permite, pular a cerca, sair do lugar comum, sentir, ouvir e olhar, numa condição ampliada de percepção de como nos colocamos no mundo de hoje.
A consciência do fim do mundo, ou seja do fim do planeta, através da referência citada por Ailton Krenak, na célebre frase de Lévis Strauss: “o mundo começou sem o homem e terminará sem ele” (KRENAK, 2020, p. 84), é uma afirmação que se apresenta como verdadeira, principalmente nos dias atuais, frente aos constantes ataques do próprio homem a si mesmo e à natureza. No entanto, o que nos faz transgredir e seguir uma utopia, na chama incerta que nos une, são as camadas de pele, nos apropriando de uma linguagem poética, cheias de marcas e experiências que demonstram que nesse caminho ao fim, podemos desfrutar da esperança de estarmos juntos, no aconchego da casa comum, sorrindo e dançando com a chuva, o sol, ocupando todos os espaços simbólicos que nos fazem ser humanos.
A Queda do Céu é uma enunciação desses caminhos possíveis na arte de viver, e que reconhece a natureza mítica das coisas (expressão do poema de Carlos Drumond de Andrade, citada por Eduardo Viveiro de Castro no prefácio do livro) (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p.14), expressão que sintetiza o sentimento e as ideias de Kopenawa, que atravessa todos os momentos de sua oralidade, ao conversar com Bruce Albert. A natureza está presente o tempo todo nas palavras de Kopenawa, mas não como entidade isolada, mas sim como estrutura permanente nas relações humanas, como parte dessa humanidade, que existe por causa dela e vice versa. Nós humanos reconhecidos como ecologia e não separados dela, é um correlato que afirma a transdisciplinaridade, numa caligrafia de aceitação e ao mesmo tempo de ação, cuja queda do céu não nos desvia de nossa mais profunda natureza primordial: do amor, da generosidade, da poesia e das diversas formas culturais, que criamos para nos abastecer de mundos possíveis.









