Epifanias Literárias – poéticas de acontecimentos na cidade
Ana Prado
Programa de Pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro
anaprado.arte@gmail.com
1. Introdução
Este artigo propõe analisar questões do espaço urbano, trazendo a luz a importância das manifestações textuais escritas nos muros e paredes da cidade do Rio de Janeiro, classificando-os como Grafite Literário (GL), terminologia adotada por essa pesquisadora, para uma abordagem específica de um tipo de grafite muito em uso nas cidades contemporâneas. Busca-se aqui, portanto, identificar através dos grafites, relações e transgressões, numa visão transdisciplinar e epistemológica, que possam trazer à luz dinâmicas de ocupação do espaço urbano e maneiras pelas quais a cidade vem dialogando com as manifestações de natureza política, poética e literária. Em especial vamos analisar dois GLs, entendidos como uma epifania literária, título desse artigo, cujo nome foi tomado emprestado do Instagram do poeta Jaime Filho. Ao observarmos mais de perto esses GLs, identificamos através de seus escritos uma vontade de mostrar aos citadinos, a necessidade de uma vida mais humanizada e vivências urbanas sensíveis, visto a grave crise social, econômica, política e ecológica pelas quais estamos imersos. Ao mesmo tempo, realçamos questões do estado de consciência com que os artistas, através dos grafites firmam aspectos do acerca desse complexo mente – consciência revelador de sensações e afetos, em relação à realidade apreendida nas experiências do cotidiano (MANDELLI, 2018, p.113).
2. A arte de grafitar
Na história, o hábito de grafitar que se tem notícia, data do período pré-histórico, como é o caso das pinturas rupestres, encontradas nas paredes e tetos das cavernas, verdadeiras representações artísticas, que simbolizavam um modo de vida da época e de um povo que habitava os primeiros núcleos urbanos.
Na passagem do tempo a prática de grafitar muros e paredes com inscrições de teor poético ou político ganham força em maio de 1968, na cidade de Paris, com os movimentos da contracultura. Naquele ambiente, jovens descrentes com o rumo do capitalismo e usando tinta spray, rasgam o verbo para falar e expressar nos muros da cidade sua insatisfação. Essa prática percorre o mundo, e como não poderia deixar de ser, o artista acompanha e age nesse processo. Jean Michel Basquiat é um exemplo em Nova York (Figura 1), seus grafites tem uma forte contestação política, representado o que acontecia mundialmente naquele momento histórico.

Figura 1- Jean Michel Basquiat em ação no centro de Nova York em 1981.
Fonte: Foto de Edo Bertoglio, https://saopaulosao.com.br/conteudos/recomendados/3473-retrospectiva-de-jean-michel-basquiat-1960-1988-com-80-obras-chega-ao-brasil-pela-primeira-vez.html#
Os grafites se expandem, e se tornam presença marcante no cenário cultural no mundo inteiro. Eles ocupam o epicentro da arte urbana, se utilizando de técnicas em pinturas sofisticadas aplicadas em tamanhos gigantescos nas grandes empenas dos prédios, muros e ou outras superfícies pela cidade. Ao longo desse processo, o grafite ganha reconhecimento no campo da arte, e participa como elemento cultural nas reestruturações urbanas, ou nas chamadas requalificações urbanísticas nas cidades pelo o mundo todo.
A partir dessas premissas, mas na contramão dessas experiências urbanas, encontramos também uma outra linguagem nos muros e paredes da cidade, que pulveriza um discurso importante para ser apreendido, e que como já delineei acima, são textos e ou mensagens difundidas pelos GLs. Buscando realçar a importância desse discurso urbano, é importante observar que os GLs não estão inseridos numa agenda urbana de culturalização, portanto não se encontram nas soluções das ditas "cidades criativas" (SELDIN, 2015, p.54). Eles são manifestações espontâneas, que surgem da produção feita por artistas, mas também por outros perfis profissionais, que se utilizam do espaço da cidade para expor e apresentar seu trabalho, pensamento e ou questionamentos que marcam a vida do citadino. Os GLs ainda guardam uma rebeldia e irreverência, que se situa no contexto performático de ações efêmeras e rápidas, frente aos impedimentos legais de uso dos muros ou paredes da cidade. Eles têm em sua natureza artística, uma base literária, que se aproxima de pensamentos poéticos, de manifestação política, e ou de posicionamento nos enfrentamentos sociais, que se colocam mediante a contraposição aos interesses neoliberais com os quais nosso país vem enfrentando nos últimos tempos.
Do ponto de vista histórico, um exemplo importante desse tipo de GL, na cidade do Rio de Janeiro é o trabalho do Profeta Gentileza (Figura 2), que nas suas errâncias ganhou destaque, transformando uma série de muros cinzas a céu aberto, em poesia, com frases e mensagens de amorização, que são ícones da cidade – “Gentileza Gera Gentileza”. Sua ação artística influenciou a vida e o cotidiano dos citadinos nos anos 80, fazendo circular pelo espaço urbano, um discurso repleto de significações, sentidos, memória, numa fala heterogênea e simbólica. Gentileza escreveu o conhecido "Livro Urbano", que são mensagens grafadas ao longo das 56 pilastras do viaduto do Caju, na zona portuária do Rio de Janeiro, participando ativamente em um momento importante de abertura política no país (YADO, 2016, p.19).

Figura 2 - Profeta Gentileza
Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com/gentileza-gera-gentileza-profeta-gentileza-jose-datrino/
3. Black Friday
Continuando a pensar a cidade e as interlocuções com os citadinos, os artistas constroem estratégias de comunicação com ênfase nas questões sócio espaciais, atuando numa perspectiva etnográfica, realçando formas de olhar e observar os acontecimentos dentro do espaço urbano. Um tipo de GL, no formato de lambe lambe tem sido muito utilizado, como expressão para o trabalho de arte – ativismo de diálogo com a população, com o objetivo de promover reflexões sociais e políticas sobre o momento em que nosso país está vivendo. A Figura 3 – Black Friday Lojas Temer, colado na Av. Presidente Vargas, Centro, RJ, de autoria do artista Marcelo Oliveira é um desses trabalhos, que surgiu no período do impeachment da presidenta Dilma, e que culminou com a tomada de poder pelo vice-presidente Michel Temer.
O trabalho associa as famosas campanhas de consumismo Black Friday (um dia inteiro de promoções generosas na venda de mercadorias em geral), com o momento do então presidente Temer, que articulou junto à políticos e ao empresariado, numa grande negociata, mudanças na legislação e nos direitos adquiridos no campo da saúde, educação e cultura, cujos interesses se contrapunham aos da maioria da população, com consequências na qualidade de vida do povo brasileiro. Na verdade, o que se viu foi a implantação de uma política neoliberal e antidemocrática. É interessante observar que o trabalho foi pensado cuidadosamente com vários elementos. O pato representado está localizado no centro do losango, cuja forma disposta é a mesma da bandeira do Brasil. O pato é o símbolo da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP), e acentua bem a dobradinha política pública e negócios, reforçando o empenho com que os empresários participaram na campanha a favor do impeachment, e todos os seus desdobramentos. Do ponto de vista artístico, a técnica utilizada para produzir o trabalho foi em xilogravura (gravura sobre madeira), o que confere uma qualidade ao conjunto da imagem. O objetivo do artista foi de fato, denunciar e trazer questões contundentes da nossa vida política e social, com uma dose de humor, mas sem perder o fio condutor de um trabalho de arte. Não se trata de mera reprodução para colagem indiscriminada pela cidade, mas oferecer uma qualidade visual que instiga o olhar do observador e apresenta novas possibilidades de se comunicar no espaço urbano.

Figura 3 – Black Friday Lojas Temer
Fonte: Foto cedida pelo artista autor do GL
Essa abordagem do artista, suscita dois pontos importantes no que diz respeito ao uso do espaço urbano. Um refere-se à cidade como um espaço de diálogo, e de intervenções artísticas que vem acompanhando as transformações no campo da arte. Outro ponto, refere-se a um certo ativismo, que ressalta questionamentos no espaço urbano e ao mesmo tempo nos diz que algo não está indo muito bem na nossa sociedade, e consequentemente na cidade. Neste sentido, sendo a cidade uma construção humana, e tal qual como ela se expressa nos dias atuais, percebe-se uma desumanização no seu conjunto de práticas espaciais, num complexo de forças mobilizadas por diversos agentes sociais, políticas e econômicas. Mas esta não é uma questão tão simples, porque em todas essas práticas existe uma alienação destacada por Mauro Iasi, que distancia o indivíduo da natureza, e ao mesmo tempo o afasta do vínculo que o une à sua espécie, transformando a produção social da vida num meio individual de garantir a própria sobrevivência particular (IASI, 1999, p. 25).
4. Epifania Literária
Trazendo outro formato de GL, destacamos o trabalho do poeta Jaime Filho, que distribui suas epifanias pela cidade, conforme apresentado Figura 4 - Quando eu me for não serei mais eu; serei poema. Epifania Literária é o nome do Instagram (@epifania.literaria), que Jaime usa para divulgar seus trabalhos nas redes sociais e nos impressos distribuídos em vários lugares da cidade do Rio de Janeiro. Jaime é motoboy de profissão, redige seus poemas entre um frete e outro, tirando das alegrias e frustrações cotidianas da rotina áspera da cidade inspiração para escrever. Tem seu primeiro livro publicado “Daquelas Tardes no Leblon”, uma antologia dos poemas que também se encontram publicados no Instagram.
Figura 4 – Epifania Literária – Rua do Riachuelo, Bairro da Lapa, RJ
Fonte: Foto cedida pelo autor
Na escolha do nome Epifania Literária, Jaime reforça que seus poemas são uma manifestação, uma inspiração, um pensamento iluminado sobre a percepção da realidade, uma poética dos sentidos de fácil compreensão para o leitor. É interessante observar, que nesse poema, Jaime realiza uma delicadeza, onde a passagem do tempo marca seu pensamento. Em poucas palavras, esse poema reconhece que somos uma composição poética, que nossa vida se constitui de vários versos, dispersos ao longo do tempo, portanto, somos únicos e ao mesmo tempo o resultado de um conjunto de poemas. Se somos poemas, como poetizar a cidade? Como fazê-la digna de viver? Citando David Harvey quando ele se refere à cidade e ao pensamento de Robert Park:
A cidade é a mais consistente e, no geral é a mais bem-sucedida tentativa do homem de refazer o mundo onde vive de acordo com o desejo de seu coração. Porém, se a cidade é o mundo que o homem criou, então é nesse mundo que de agora em diante ele está condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem nenhuma ideia clara da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo (HARVEY, 2012, p.73).
A cidade pensada como um desejo, pode ser entendida na relação em que eu, você, nós e eles desejamos juntos, na perspectiva da construção de um estado de direito para todos. Assim, podemos reconhecer que o direito à cidade, não se restringe apenas na nossa capacidade de ir e vir, mas no direito à vida urbana. Não se trata do direito de acesso àquilo que já existe, mas no direito de mudar as coisas, conforme nossos desejos. Além disso, o direito é comum, muito mais que individual, já que a transformação depende inevitavelmente do exercício do poder coletivo nos processos de urbanização. Então, se ao fazer a cidade, o homem refaz a si mesmo, se faz necessária uma avaliação continua do que poderemos estar fazendo de nós mesmos, e com os outros. Jaime com seus poemas espalhados pela cidade, evoca uma cidade possível e amorosa, e nos convida para um ato responsável de como estar e viver coletivamente.
5. Conclusões
Nos parece que as manifestações dos GLs nos muros da cidade, poeticamente falando, na pele da cidade, são pequenas erupções que eclodem de um processo interno, e quando não tem mais para onde ir explodem e se apresentam externamente, denunciado que algo não vai bem, e consequentemente informando a necessidade de um tratamento, tal qual acontece com o corpo humano. A pele é o órgão mais visível e fácil de interpretar, porque escancara uma série de mazelas internas, nos obrigando a reflexões e cuidados especiais para voltar a uma vida saudável. A cidade como um corpo, reflete a mesma coisa, e responde com inúmeras manifestações de várias naturezas, expondo os desequilíbrios, e o quanto nos distanciamos de uma qualidade de vida urbana mais harmoniosa, coletiva e amorosa.
Nessa configuração corpórea existe um entrelace entre o dentro e fora, um devir que vai na direção do fora em conjunção com uma paisagem interna. O lado de fora é um espaço-tempo entreaberto por sensações, evidenciando que o afeto e o percepto ocorrem instantaneamente (MACIEL, 2018, p.19).
O esforço dos artistas, quando na composição dos GLs, expõem elementos importantes, entre o desejo e as formas necessárias para a realização desse desejo. Podemos dizer que os GLs seriam mecanismos de realização dos desejos, atuando numa linguagem direta, escrita em formatos diversos e com significados distintos seja político, literário e poético. Talvez nos GLs existam uma vontade de interagir no inconsciente fragilizado das pessoas, que circulam no território da cidade, como diz Laura Buroco (2019, p.180). Uma vontade de oferecer momentos de subjetividade e poesia. Poesia aqui não precisa ser reconhecível como poesia para ser poesia, ao contrário, mas sim reconhecida como uma experiência, uma prática, uma ação (PENNA, 2017). Ação que instiga reações nas pessoas, que as ajudem nem que seja por um momento, colocar um sorriso e ou uma expressão de alerta, sobre que tipo de vivências estamos compartilhando na cidade. Aqui, percebe-se a importância das questões psicológicas do sujeito individual na cidade, e que segundo George Simmel, esse tipo de homem metropolitano formado por intensos estímulos nervosos, resulta da alteração brusca entre estímulos exteriores e interiores, que determina nosso comportamento na cidade.
O homem é uma criatura que procede a diferenciações, neste sentido sua mente é estimulada pela diferença entre a impressão de um dado momento e a que a precedeu [...]. Com o atravessar a rua, com o ritmo e a multiplicidade da vida econômica, ocupacional e social, a metrópole extrai do homem uma quantidade de consciência diferentes, num ritmo de vida muito mais acelerado, se comparado à uma cidade rural (SIMMEL, 1973, p.12).
Estamos o tempo todo alterando profundamente nossas relações com o ambiente, e com tudo a nossa volta, isso significa que a realidade observada não é apreendida de forma direta e passiva, e sim abstraída e ativamente interpretada a cada instante pelas estruturas presentes no cérebro. Pode-se argumentar desta maneira que a consciência cria, a todo instante, o mundo e seus objetos, desde as percepções do sistema nervoso, passando pelo corpo, até as elaborações mais abstratas (MANDELLI, 2018, p.114). Ainda segundo Mandelli, nesse complexo corpo-mente, a consciência pode ser entendida como o sujeito da experiência em todas as suas formas. De acordo com as tradições da cultura indiana, a consciência é aquilo que é luminoso, o que significa ter o poder de revelar, tal qual a luz. (MANDELLI, 2018, p.127).
Frente a esses processos, pode-se entender que o artista ao criar os GLs, eleva sua experiência a uma consciência que revela, ou seja, ilumina e joga luz sobre a cidade, pois é a partir da consciência que as percepções, as memórias, o futuro sob as condições de esperança e expectativa emergem.
Somos testemunhas, observadores, partilhando sonhos e desejos. O artista circula por esse espaço da partilha, ou seja, na partilha do sensível denominado por Rancière (2009) como aquilo que revela um comum, e suas respectivas partes definidas nos lugares, um comum partilhado e com partes exclusivas:
[...] essa repartição de partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempo e de tipo de atividades, que determina propriamente a maneira como um comum, se presta à participação, e como uns e outros tomam parte dessa partilha. (RANCIÈRE, 2009, p.15)
A cidade como um complexo de estruturas sócio políticas e econômicas, e sendo uma criação humana, tem na possibilidade da partilha, revelar o comum através dessas manifestações textuais dos GLs. Trata-se de um olhar coletivo sobre os sistemas implantados no espaço urbano, que busca agregar valor às demandas necessárias para a melhoria da qualidade de vida do citadino. Se descobrimos que nossa vida urbana se tornou estressante e ou alienante, temos o direito de mudar e refazer na construção da cidade que queremos. Portanto o tipo de cidade que queremos, se torna inseparável da pessoa que desejamos ser (HARVEY, 2012, p. 73). Hoje mais do que nunca, a pessoa que desejamos ser, precisa instaurar uma visão ecológica da nossa existência. Airton Krenak se refere aos povos indígenas, não como indivíduos, mas como “pessoas coletivas”, com capacidade de transmitir através do tempo suas visões do mundo - nos parece que eles têm muito a nos ensinar. Nos últimos tempos, a gente não faz outra coisa senão despencar, cair, cair, cair. Então, vamos aproveitar nossa capacidade critica e criativa, construir paraquedas coloridos, e pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos, onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos (KRENAK, 2019, p.28, 30).
Referências bibliográficas
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Artgo publicado no Congresso Scientiarum História XIII - 2020